sábado, 23 de julho de 2011

Crônica: Encontro com o mestre Graça, a caminho de Palmeira dos Índios

Encontro com o mestre Graça, a caminho de Palmeira dos Índios.
Crônica revive o caminho para Palmeira dos Índios, cidade em que Graciliano Ramos chegou aos 18 anos, viveu e se consagrou como escritor, autor de Caetés e São Bernardo.
Por Cecilia Luedemann

- Por favor, senhor, a rodovia que liga Maceió a Palmeira dos Índios está em boas condições?
- A BR 316 é muito boa, você chega lá rapidinho, se não tiver acidente...
O frentista conhecia bem a “Estrada do Açúcar” para a “Princesa do Sertão”. Com o asfalto novinho naquele trecho, mas perigosa com o entra e sai dos treminhões, os caminhões canavieiros, lotados de cana, em janeiro. O plano: sair cedinho para não torrar dentro do carro e conhecer o caminho que leva à cidade em que Graciliano Ramos chegou aos 18 anos, casou, enviuvou, casou outra vez, teve sete filhos, foi jornalista, inspetor de ensino, prefeito por dois anos, fundou uma escola na sacristia da Igreja Matriz e ganhou o ofício de escritor com Caetés e São Bernardo.
Na saída de Maceió, parte da mata atlântica ainda resiste. A mais valia a qualquer custo deixa as suas marcas em qualquer bairro da capital, dos mais pobres, tomados pelo tráfico de drogas, seringas jogadas nas calçadas, até nos considerados pontos turísticos, com as velas das jangadas transformadas em outdoors de grande mau gosto. Em 1944, Graciliano escrevia sobre essa realidade, como um desastre: “Alagoas é um estado pobre. Em pouco mais de vinte e oito mil quilômetros quadrados arruma-se quase um milhão de habitantes. Para bem dizer, não se arruma: na praia, há charco, mosquito, sezão; na catinga há seixo, cardo, fome. Entre as duas zonas aperta-se a mata, com algodão e cana-de-açúcar, mas aí não consegue terra facilmente, o salário é baixo – e para lá das cancelas o despotismo do proprietário vale o mosquito e o cardo juntos.”
Mas, um novo cenário surpreende o viajante. Ao longo da rodovia, bananeiras, coqueiros, mangueiras e jaqueiras dão sombra, matam a fome e a sede. Um caminho solidário, amigo, cheio de beleza e fartura. O pensamento caminha da estrada para as páginas dos livros do ‘velho Graça’, o sofrimento de Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos, o sonho delirante da cachorrinha Baleia em um paraíso cheio de preás, mundo da fartura em que nenhum ser vivente passaria fome, como em Vidas Secas.  As árvores seguem carregadinhas de frutas, nos lembrando que a vida poderia ser diferente. Em seu Autorretrato aos 56 anos, o escritor se apresenta aos leitores: “É ateu. Indiferente à Academia. Odeia a burguesia. Adora crianças.”
O caminho para Palmeira dos Índios vai revelando os personagens e os cenários de Alagoas que foram descritos pelo mestre Graça, como era conhecido entre os amigos. Olho no relógio, 7h10, as lavadeiras do município de Atalaia já voltam com as roupas lavadas na bacia, levadas com total equilíbrio em cima da cabeça. Nos varais das casinhas coloridas, enfileiradas, as lavadeiras penduraram lençóis brancos como as nuvens do caminho.
Foram as lavadeiras que ensinaram Graciliano o ofício do escritor. Escrever é sempre tirar palavras que sobram, como a sujeira da roupa. “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada...”  E, no final, sintetiza: “Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”
Mais a frente, a cana-de-açúcar já alta, pronta para ser cortada, nos rouba o horizonte. O mundo do latifúndio, a monocultura e a fome. A Casa Grande do Engenho, as casinhas da colônia de trabalhadores. Um placa ameaça: “Fazenda Paraíso: proibido entrar”. Passa cana alta, passa cana queimada, passa cana cortada, passa treminhão atrás de treminhão, carregados de cana de um lado para outro, passa terra vazia, vazia, vazia, passa terra com cana novinha. E não passa mais ninguém.
Somente no Km 219, avistamos seres viventes. O relevo vence a ambição dos senhores da cana, mas as cercas do latifúndio acompanham também morros e vales, espalhando bois branquinhos pelo pasto. Do outro lado da pista, uma bandeira do movimento dos trabalhadores rurais sem terra voa alto sobre o acampamento das cabanas de palha. Herdeiros da luta de um povo corajoso que se colocou contra a violência brutal de séculos, como a descrita por Graciliano em uma crônica de 1933. “O caboclo apanha bordoada sempre: apanha do pai, da mãe, dos tios, dos irmãos mais velhos, apanha do proprietário que lhe toma a casa e abre a cerca da roça para estragar as plantações, apanha do cangaceiro que lhe raspa o osso da canela a punhal e lhe deita espeques nas pálpebras, para ver a mulher, a filha, a irmã serem possuídas. E se um inimigo vai à rua e o acusa, o delegado manda prendê-lo e ele aguenta uma surra de facão no corpo da guarda, outro de cipó de boi no xadrez, aplicada pelo preso mais antigo.”
O vento forte arrasta as nuvens carregadas e cobrem o sol gigantesco de Alagoas. O mesmo silêncio do canavial invade também os pastos. Os senhores das vacas e dos bois tomam conta das terras mais a frente. Pasto novo, bonito, como um imenso tapete verde claro. É a “Princesa do Sertão” que se aproxima, terra dos índios tomadas pelos portugueses, terra do leite, do sertanejo sangrado como boi.
As árvores pintadas com flores vermelhas avançam sobre o agreste. Mas, de repente uma estranha combinação aparece no caminho de encontro à cidade do mestre Graça. Entre as velhas olarias e os casebres de pau a pique plantados como a palma e o cacto na terra vermelha, ao fundo da Serra da Pedra Talhada, encontramos as primeiras antenas parabólicas na casinhas pintadas de cores alegres.
Uma miséria mais colorida que no tempo de Graciliano, como descreve uma habitação típica da roça: “Baixa, de taipa, cheia de esconderijos, lúgubre. O teto, chato, acaçapado, quase sem declive, é negro; é negro o chão sem ladrilho, de terra batida, esburacado e sujo; negras as paredes sem reboco, com o barro que as reveste a rachar-se, deixando ver aqui e ali o frágil madeiramento que serve de carcaça.” E conclui, depois de detalhadas informações sobre os cômodos da casa, quintal e alpendre: “Uma habitação horrível, como veem. Contudo viveu ali, sem se queixar, uma família decente, religiosa e pastoril, domesticada no regime patriarcal.” Rejuvenescido, Graça nos diria, hoje, das parabólicas que levam para dentro das habitações horríveis o colorido das novelas e dos telejornais. Mais um “Milagre Brasileiro” invade os casebres pela rede nacional de telecomunicações.
Enfim, chegamos. Logo na entrada de Palmeira dos Índios, uma homenagem à Graciliano Ramos, mas quando avistamos uma concessionária de veículos mais a frente abandonamos  lembranças do jovem Graciliano sobre aquela cidadezinha de apenas 5 mil almas. Em Viventes das Alagoas, escreve sobre esse tempo:
“Na cidadezinha do interior, ingênua e presunçosa, há uma sociedade beneficente, um grêmio literário e uma banda de música. A sociedade beneficente distribui esmolas com moderação e enterra os mortos; o grêmio literário funciona, emperra, fica às vezes um ano inteiro sem dar sinal de vida, torna a animar-se na posse da diretoria, encrenca de novo; a filarmônica ensaia dobrados à noite e é indispensável nas festas grandes e nas recepções dos políticos notáveis da capital.”
Palmeira dos Índios tem hoje mais de 70 mil habitantes. Fervilhante de pessoas e carros que entopem as ruas estreitas, a “Princesa do Sertão” mais parece a “Deusa Mercado”, como qualquer bairro comercial de Maceió, lojas de todos os tipos e tamanhos, vendendo a vista e a prazo da carne seca ao celular. Três lugares obrigatórios para se conhecer: a casa de Graciliano, a biblioteca municipal e o Museu Xucurus.
Qualquer cidadão mostra com orgulho onde fica a casa do escritor, transformada em centro cultural. Toda branquinha, os quatro janelões azuis-marinho dão para a calçada e um portão lateral dá para a entrada da casa. Nada melhor que ver a escrivaninha em que escrevia, todos os dias pela madrugadinha, como ele mesmo conta, antes que chegasse o calor escaldante do sol sertanejo. ”Naquela tarde horrível os quarenta graus anunciados pelo serviço metereológico subiam do asfalto, entravam-nos por baixo das calças, envolviam-nos as pernas como bainhas ardentes. (...) Bambeávamos no calor, procurávamos um pedaço de sombra, as camisas grudavam-se à pele, os medonhos paletós escureciam os sovacos.”
Lá, sentado frente aos frescos janelões escancarados para a rua, o mestre Graça lavava pacientemente cada página de suas histórias das palavras inúteis, até que estivessem limpas, bem limpas e enxutas, escritas e reescritas a mão, como as incansáveis lavadeiras de Alagoas.
- Onde estão os livros de Graciliano para a consulta?
- Estão na biblioteca municipal.
- Graciliano é muito lido, aqui em Palmeira dos Índios?
- Não. Procuramos divulgar aqui na Casa de Cultura, mas é muito difícil. Os turistas estrangeiros têm mais interesse, conhecem mais que o povo daqui.
O senhor que nos acompanha na casa de Graciliano ensina como chegar à biblioteca. Um antigo depósito desativado na estrada de ferro com bustos de escritores brasileiros pintados nos muros. Dentro, alguns estudantes fazem pesquisas com livros didáticos. A estante com livros do velho Graça, bem organizada, mas intocável, cheia de poeira e de teias de aranha.
- Você é bibliotecária?
- Não, só tomo conta.
- Graciliano Ramos é conhecido, aqui?
- Não, as pessoas procuram mais livros para tarefa de escola e para concursos. Graciliano, não procuram, não.
A moça ri com um sorriso aberto e franco, como um sinal de que também não leu os livros de Graciliano. Outros escritores, como Jorge de Lima, felizmente lá estavam para orgulho dos alagoanos, mas também esquecido na poeira. Os livros didáticos e paradidáticos imperam gloriosos com sua inútil desinformação escolar. Um verdadeiro depósito de livros abandonados.
Se lessem Graciliano Ramos, saberiam porque Delmiro Gouveia foi assassinado, saberiam também de outros nomes mais importantes, como Inácio da Catingueira, o poeta culto, vencedor de desafios, grande representante da literatura nacional, que nunca entrou para a história oficial só porque era negro e analfabeto.
Quem abrisse uma página qualquer do mestre Graça, ali, no meio daquele antigo depósito da estação de trem, teria redescoberto o sentido da vida de Palmeira dos Índios, os seus mais terríveis segredos do passado, a compreensão mais profunda de seu presente. Talvez, diante dessa beleza explosiva, chamasse os amigos e as amigas para fazer uma bela fogueira de São João e queimassem todo esse entulho. Depois, numa verdadeira festa, tendo aberto o espaço de tantas prateleiras vazias, limpar e organizar todos os livros de verdade, em bela exposição de Infância, Alexandre e outros heróis, trazendo para a “Princesa do Sertão” o menino Raimundo, da  Terra dos meninos pelados, para lutar por uma escola do povo, reforçada por políticas culturais que salvem as bibliotecas e estimulem a leitura.
Última parada da viagem, Museu dos Xucurus. A Igreja do Rosário, construída por escravos, guarda o artesanato indígena, os instrumentos de tortura do tempo da escravidão, roupas de Lampião e Maria Bonita. O lampianismo, tão forte em Alagoas, também foi refletido por Graciliano: “O que transformou Lampião em besta-fera foi a necessidade de viver. Enquanto possuía um bocado de farinha e rapadura, trabalhou. Mas quando viu o alastrado morrer e em redor dos bebedouros secos o gado mastigando ossos, quando já não havia no mato raiz de imbu ou caroço de mucunã, pôs o chapéu de couro, o patuá com orações da cabra preta, tomou o rifle e ganhou a capoeira. Lá está como bicho montado.”
E ao nos questionar por que perdemos a coragem de lutar, suas palavras acordam todos nossos antepassados xucurus do museu: “ Como somos diferente dele! Perdemos a coragem e perdemos a confiança que tínhamos em nós. Trememos diante dos professores, diante dos chefes e diante dos jornais; e se professores, chefes e jornais adoecem do fígado, não dormimos. Marcamos passo e depois ficamos em posição de sentido.” Mas, nos dá, ainda hoje, esperança: “E já agora nos trazem, em momentos de otimismo, a esperança de que não nos conservaremos sempre inúteis. Afinal, somos da mesma raça. Ou das mesmas raças. É possível, pois, que haja em nós, escondidos, alguns vestígios da energia de Lampião. Talvez a energia esteja apenas adormecida, abafada pela verminose e  pelos adjetivos idiotas que nos ensinaram na escola.”
Lá, na Igreja do Rosário, entre todos os poderosos da terra, encontra-se o retrato de Graciliano Ramos, prefeito. Um museu abandonado, com objetos de todos os tipos,  desde conjuntos de louça, roupas, móveis antigos, até cerâmica mortuária, mas com um acervo sem uma manutenção adequada. Um desprezo enorme do poder público pela memória da história da cidade. Muito diferente do prefeito Graciliano, que lutou contra os poderosos e administrou para o povo: “E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores.”
Na saída do museu, avistamos ao longe a colina do território tradicional do povo Xucuru-Kariri que comemora a sua demarcação. Uma nova energia que brota dos povos originários da terra com ações que devolvem a confiança em nós mesmos e a coragem de lutar por um Brasil mais justo, como o mestre Graça. Íntegro e valente, foi preso duas vezes e dizia que lhe era “indiferente estar preso ou solto”. Para aqueles que o chamavam de pessimista, discordava em seu Autorretrato: “Deseja a morte do capitalismo.”

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